8 de setembro de 2013



O jornalista é o profissional que trabalha com a informação. É o profissional que, aparentemente, deve saber mais que todo mundo em todos os sentidos. É o profissional que, inclusive, não deve tomar partido. Porém, essa “parada” de profissional já torrou minha paciência.

Não quero ser profissional para vender notícia. Não quero ser profissional para ver uma pauta na desgraça ou sofrimento alheio e transformá-la em mercadoria jornalística – notícia. Quero apenas me transformar em um melhor ser humano, pois para mudar o mundo não preciso ser técnico ou profissional. Basta, ou já é um bom começo, ter atitudes humanas!

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Acredito que preciso me preocupar verdadeiramente com o próximo e sentir um profundo incômodo com o errado. Não posso ser um profissional que ao invés de buscar “um fato atual com interesse geral" (CARDET, 1979:38/39) vai sair desesperadamente querendo noticiar algo vendável e de interesse de classes, ‘transformando uma notícia em mercadoria’ (Ciro Marcondes).

Arte: Pablo Henrique / Texto: Epifanio Santos

Não digo que o jornalista seja o bicho papão da desgraça alheia ou a pior das profissões, mas de uns tempos pra cá o “profissional” de jornalismo tem perdido sua identidade. Talvez, seja esse o motivo de estarmos numa “guerra de canudos” [risos, entendeu?] E essa falta de identidade começa pela nossa formação. Muito se prega nas universidades, por exemplo, sobre imparcialidade. Porém, sempre vamos escolher a melhor forma, o melhor ângulo de darmos a notícia. E se não fizermos, seremos mesmo o profissional ao invés de seres humanos. Mas, ressalto que já começamos a ter uma boa formação se discordarmos e percebermos que a imparcialidade é “balela”, conversa fiada. Quem acredita que jornalista é imparcial, acaba frustrado.

Pois, na verdade, imparcialidade trata-se de uma estratégia de marketing. Uma forma de atrair o telespectador/ouvinte/leitor que já anda desacreditado com inúmeras situações em que o jornalismo deixa de noticiar “um fato atual com interesse geral" (CARDET, 1979:38/39) para noticiar algo de interesse de classes; seja ela política, empresarial ou organizacional. Se vamos fazer isso que façamos pelos mais necessitados. Deixemos de ter a notícia como ‘um formato’ do jornalismo para tê-la como uma ‘ação social’ em prol da humanidade.

Claro que os cursos devem ensinar ou tentar fazer com que sejamos imparciais, mas é algo completamente impossível. Teremos que tomar partido. Teremos que escolher um lado. E que seja o lado da justiça. O lado dos mais fracos. O lado do ser humano.

Além disso, as faculdades de jornalismo estão cada vez mais voltadas para formar técnicos e, principalmente, para o jornal impresso e TV. Um exemplo é tirar as disciplinas ‘humanas’, deixando apenas as técnicas! Claro que 60h de uma disciplina humana não farão de você um melhor cidadão, mas pode te ajudar a refletir um pouco sobre suas atitudes.

O fato é que acredito em uma formação crítica desde o início. A criticidade deve ser uma disciplina para o resto da vida. Afinal, quando tudo parecer normal para um estudante de jornalismo é sinal de que algo está anormal, não penas nele, enquanto cidadão, mas em sua formação.

Diariamente precisamos tomar o ‘chá de consciência’ e nos autoavaliar em busca de fraquezas que podem ser combatidas. Eu, por exemplo, tenho feito isso nos últimos dias. Quando decidi pelo jornalismo eu queria mudar o mundo a partir da boa informação. Queria ser um jornalista, daqueles que não esconde nada e nem se corrompe por causa de alguns trocados ou agrados de políticos, empresários ou, em alguns casos, facções criminosas.

Queria “noticiar tudo o que o público necessita saber..."(Colliers Weekly) e que fosse "capaz de despertar a atenção e curiosidade de um grande número de pessoas" (AMARAL, 1982:60). Mas, queria fazer isso honestamente. Sem perseguições ou retaliações.

O tempo passou e algumas coisas vão seguindo rumos que não esperamos. Após inúmeras observações, pude notar que fazer jornalismo já não era tão interessante pra mim. A ideia de atuar diretamente com a notícia já não me fazia tão bem, era algo intimidador.

Aos poucos fui me redescobrindo e percebendo o quanto estava seguindo por um caminho diferente daquilo que, de fato, eu buscava. Não que eu queira ser corrompido ou não tenha mais vontade de noticiar, investigar ou fiscalizar “homens públicos”. A questão é que não sou de ficar calado ou passar por cima de princípios que adquiri desde criança.

Vejo que não sou capaz de aceitar a “queda” de uma pauta por força política ou empresarial, simplesmente para manter-me empregado. Percebo que serei incapaz de publicar uma notícia apenas para “ferrar” com um adversário do “patrão”. E nem adianta alguém tentar me convencer de que nada disso acontece! E o mais importante de tudo é que consegui enxergar que pra mudar o mundo ou, no mínimo, tentar eu não preciso ser jornalista. Apenas preciso ser antes de tudo, um bom ser humano pra depois ser o profissional, independente da área.

Então, de uns tempos pra cá, tenho conseguido perceber, não o jornalista, mas o humano que estou construindo. Eis que a cada dia, construo um pouco do ser humano que minha mãe tem orgulho, que minha esposa necessita e que meu filho admira. Posso andar errado, mas não quero ser o profissional. Quero apenas ser um bom cidadão, humano. Pois, uma vez sendo humano posso ser o que eu quiser. Posso me importar verdadeiramente com o próximo. E parafraseando Ciro Marcondes, uma vez humano, deixarei de ver uma pauta na desgraça ou sofrimento alheio para ‘transformar uma notícia em mercadoria’. Afinal, precisamos deixar de pensar que a sociedade precisa comprar a notícia. O que a sociedade precisa é mudar a partir de uma notícia.

Portanto, o jornalista que estou construindo não é profissional, é humano! Não quero ser o 'melhor técnico', quero apenas me tornar um bom cidadão. O resto é consequência! Acredito que de ‘nota’ em ‘nota’ vamos construindo uma notícia melhor e, se quisermos, podemos transformá-la em uma grande reportagem sobre como fazer o bem à sociedade com ou sem profissão. Sendo ou não jornalistas.

Texto produzido como trabalho da universidade e que mereceu vir pra cá. Além disso, junta-se à opinião [aqui] da minha colega Andreza Galiego, estudante de jornalismo e editora do blog Jornalista sem Pauta.
E você, qual é o jornalista que está construindo ?






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