18 de março de 2013



O jornalista Rômulo Maia aceitou dividir suas experiências com centenas de estudantes de jornalismo que acompanham o ferramentasfoca.com

Nessa entrevista ele nos conta detalhes sobre a perseguição que sofreu em 2012, quando cobria as manifestações do #contraoaumento, em Teresina (PI). "Foi nessa ocasião que um representante da Prefeitura de Teresina pediu minha demissão", revelou.

Na época, o jornalista era repórter de um dos portais mais acessados do Piauí, Portal AZ. "Tentaram frear minhas postagens no blog (ele tem um blog), Portal AZ e nas redes sociais. Como nada deu resultado, prepararam algo maior" acrescentou Rômulo.


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Jornalista Rômulo Maia
Ao ser indagado sobre a importância do estágio para quem ainda cursa os primeiros períodos de jornalismo, ele demonstra uma insatisfação do que tem visto. "O estágio é um importante espaço de formação. O problema é que muitos jovens estão sendo deformados pelas lógicas tortas impostas pelo mercado de trabalho. Fico assustado ao ver estudantes ainda imaturos assumindo cargos de chefia, posando nas redes sociais com cédulas de dinheiro “dadas” pelos chefes" declara  o jornalista Rômulo Maia. 

Na entrevista, o jornalista Rômulo Maia ainda revela detalhes de como surgiu a ideia do Pisei Chão - blog que já lhe rendeu dois troféus do Prêmio Interaje. Rômulo Maia formou-se em jornalismo pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e também foi coordenador do Portal O Dia. Atualmente [2014], é formando em odontologia.




Estudar jornalismo sempre foi a tua primeira opção? Por quê?
Não. Cresci sob a influência de um dentista e de uma professora. A docência nunca me encantou, mas a Odontologia... Do meu quarto ouvia a broca do consultório trabalhando – o consultório ficava em um cômodo contíguo a nossa casa. Vez por outra fazia minhas tarefas lá mesmo, vendo meu pai trabalhar. Então, eu sempre quis ser dentista. Sabe aquelas tarefinhas que perguntavam “O que você quer ser quando crescer?”. Eu sempre desenhava um consultório com um dentista trabalhando. Isso mudou na adolescência. A falta de afinidade com a química, física e biologia e o gosto pela história, geografia e redação, me levaram ao vestibular de Comunicação Social. No final de 2002 tentei vestibular para Odontologia, mas não deu certo. No ano seguinte eu já estava encantado com a ideia do jornalismo e foi o que busquei. Deu certo no vestibular da Uespi de 2003.

Teu irmão, o Léo, também estuda jornalismo. Foi você quem influenciou?

Acho que nosso encanto pela área partiu de vertentes diferentes. Isso só ele pra te dizer com segurança. Lá em casa somos três filhos, cada um com personalidade oposta a do outro. Nossa criação ensinou isso, a ter opinião, a não ir muito com os outros. Por isso considero que o Leonardo encontrou seus motivos e encantos próprios.



Você era ativo em movimentos estudantis?

Muito. Foi um encontro tardio, é verdade. Encontrei o Movimento Estudantil apenas na universidade. No primeiro período entrei para a gestão do Centro Acadêmico da Uespi, o COMUNS. E militei até o fim do curso. Fiz parte de três gestões do C.A. e fui coordenador da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (ENECOS). Nesse período, participei de várias mobilizações dentro da universidade - a maioria em busca de melhorias para o curso e para a Uespi.



Você entrou no mercado de trabalho logo nos primeiros períodos do curso? Como foi?

Comecei a estagiar quando estava no primeiro período do curso, na assessoria de comunicação de um órgão público. Não sabia de porra nenhuma, então aprendi no batente, fazendo, errando, sendo corrigido e refazendo. Essa experiência me deu base para buscar outros espaços.



Você acha que procurar estágio logo nos três primeiros períodos é importante ou uma atitude precipitada?

Importante, porém arriscado. Tive sorte de ter chefes éticos e responsáveis, que souberam me guiar por bons caminhos. Mas nem sempre é assim. O estágio é um importante espaço de formação. O problema é que muitos jovens estão sendo deformados pelas lógicas tortas impostas pelo mercado de trabalho. Fico assustado ao ver estudantes ainda imaturos assumindo cargos de chefia, posando nas redes sociais com cédulas de dinheiro “dadas” pelos chefes. As universidades e faculdades são, em parte, culpadas por isso. Afinal, elas deveriam acompanhar melhor a qualidade desses estágios, orientando e supervisionando os estudantes.



Qual seria a melhor área para um foca começar; impresso, portal, tv, rádio, etc? Por quê?

Não vejo como ter um critério fechado sobre isso. Jornalismo é muito tesão. Por isso defendo que se busque o espaço que lhe proporcione mais prazer. Todos, de diferentes formas, podem oferecer ricas experiências. Eu, por exemplo, não curti muito assessoria, sou louco por jornalismo online e acho que o impresso tem um charme especial.



Já ouvi pelos corredores da UESPI que você era crítico e quando chegou ao mercado se enquadrou perfeitamente no processo, ou melhor, sistema. O que você tem a dizer sobre isso?

É um julgamento. Para comentar e debater eu teria que saber os argumentos de quem fala isso pelos corredores. O que posso dizer é que a visão de quem está de fora geralmente tende para esse tipo de avaliação. É mais que natural. Mas, o que é “se enquadrar perfeitamente no processo”? Todo profissional precisa entender os espaços onde está inserido para atuar da melhor forma. Partindo desse entendimento, claro que estou enquadrado. Enquadrado, porém, não conformado. São duas coisas diferentes. O mercado privado nos impõe uma rotina, que exige cumprir horários e metas. Se você não faz isso, está fora. Sou um operário como tantos outros que precisa trabalhar para pagar as contas e sobreviver. Agora, nunca me moldei ou me calei diante do que julgo estar errado. Nunca menti, omiti ou agi de forma antiética para agradar chefe, puxar saco de fonte ou beneficiar interesses privados. Continuo com minhas visões, opiniões e críticas, inclusive ao mercado de trabalho e às empresas - os salários são baixos, as condições de trabalho estão longe de ser boas, a rotina é puxada, a intelectualidade não é valorizada. Apenas deixei de ter militância ativa; desde que saí da Uespi não participei mais de espaços fixos de mobilização social. Culpa da rotina corrida. Porém, faço do jornalismo minha ferramenta cotidiana de luta e tentativas de transformação. Não vejo contradições nessa minha curta trajetória, mas topo conversar pessoalmente sobre o assunto, principalmente se tiver um bom piscinão de vinho. Gostaria de ouvir os argumentos de quem tem essa opinião. O que não posso – e nem quero! – é convencer ninguém do contrário.

No período passado uma professora emitiu opinião desfavorável sobre você. Como era teu relacionamento com o corpo docente da UESPI? Você guarda mágoa de algum professor?
Novamente precisaria saber o que ela comentou, para depois falar sobre. Cada um fala o que quer e, inclusive, devo ter dado motivos para a formação de alguns conceitos ruins no período em que estive na Uespi. Nossa atuação no C.A., às vezes “implicante” demais, deu margem para algumas zangas. E outra: eu era um recém saído da adolescência: impulsivo, imaturo, muitas vezes bobo, chato... A convivência humana é complexa e nem todos vão gostar 100% de você. Isso é normal. Mas tive grandes professores, que ensinaram lições para a vida toda. Ainda hoje, quando escrevo um texto ou tomo decisões ou assumo posturas em pautas, lembro de alguns professores da Uespi. Mágoas? Apenas dos que não deram aulas. 

O Pisei Chão surgiu como refúgio das tuas angústias?
Sabe aquela pergunta sobre o “enquadramento”? Pois bem, o blog surgiu justamente para escrever o que não cabia no jornalismo formal. Para expor ideias vetadas nos locais onde trabalhei. Minha parte desobediente está lá, atuando ativamente – algumas vezes de forma séria, noutras tantas com molecagem. O Pisei Chão é meu sopro de rebeldia.


Como foi o surgimento do blog?
Começou em 2006, com o nome de Rascunhos Universitários. Desde 2004 tentava emplacar algum blog, mas não rolava. Faltava uma linha a seguir. Quando criei o “Rascunhos” trabalhava em um local extremamente chato. Em contrapartida, na universidade, tudo estava bem movimentado, era um período fértil de ideias e acontecimentos. Precisava de um local para canalizar tudo isso, daí o blog nasceu.

Você imaginava que o Pisei Chão fosse te render alguma coisa?
Não! Nasceu como uma brincadeira e permanece assim. Lamento para quem leva o Pisei Chão a sério.

Fala um pouco das conquistas através do blog. Você já deu entrevista, ganhou prêmio no Interaje e o quê mais?
O Pisei Chão é um dos pioneiros nessa área de blog de humor aqui no Piauí. Isso é interessante, porque quem começa sempre pega as piores pancadas. Vivemos em um estado de costumes ainda provincianos, com uma classe política acostumada a pensar que manda e controla tudo. Quantas postagens já fiz e colegas vieram alertar: ”Deputado fulano vai te processar.” Até hoje ninguém processou, mas, em pelo menos duas ocasiões meu emprego esteve em risco. Os “donos” do poder confundem tanto as coisas, que visitaram meus locais de trabalho para pedir minha demissão ou manifestar a necessidade de um freio no blog. São tentativas de intimidação. Cede quem é fraco das convicções. Acho que incomoda saber que o blog é independente e a grana deles não pode interferir.
Jornalista Rômulo Maia recebe prêmio Interaje

Os dois prêmios Interaje de “Melhor Blog” (em 2011 e 2012) são gratificantes porque a indicação foi popular. Os internautas levaram o blog até os cinco finalistas e ao primeiro lugar. Isso é bom, porque é um termômetro: o blog agrada alguém.

O Rômulo é, de fato, tal qual a descrição que tem no blog ou a piada já começa por aí?
Tudo é uma piada séria.

Sua habilidade com a escrita vem desde as séries lá do fundamental/médio ou nasceu com o curso de jornalismo?
Sei lá. Sou péssimo para avaliar minhas coisas. Não tenho tanta habilidade assim. Estou longe de ser um bom escriba. Às vezes escrevo textos que, a meu ver, ficaram uma porcaria. Aí as pessoas elogiam. Noutros, penso ter feito um belo trabalho e vem a crítica pesada. (Quanto a isso, os internautas são fiscais cruéis; não perdoam erros ou ideias mal mastigadas.) O que posso dizer é que sempre gostei de escrever e era bom em redação na escola. Claro que a universidade e a prática jornalística te ensinam a lapidar a escrita. Isso é inegável. Ninguém nasce sabendo. Tudo é uma questão de praticar, ler bastante e nunca se achar pronto.

O que o jornalismo significa pra você?
Meu tesão diário, minha fonte maior de estresse, meu romantismo e as maiores desilusões.

Lembro-me do movimento #CONTRAOAUMENTO e de ter visto alguma coisa sobre perseguição contra o seu trabalho, é verdade? O que aconteceu naquele período?
 Imagem do #contraoaumento/Reprodução
Foi um período bem complicado. A prefeitura aumentou a passagem de ônibus, implantou um projeto tosco de integração das linhas e comprou a linha editorial dos maiores meios de comunicação do Estado. E aí, pronto!, achou que estava tudo feito. Não contava com as reações nas redes sociais, nos blogs independentes e, principalmente, nas ruas. Aí, quem ousou se rebelar foi perseguido. O movimento foi criminalizado com ajuda de jornalistas, gestores públicos, representantes do Ministério Público e, claro, da polícia. Toda a violência institucional foi justificada e referendada nos programas televisivos, nas rádios e nos jornais impressos. Manifestantes foram espancados, presos e a censura aos meios de comunicação vigorou com força. Como estava ao lado dos rebelados, sofri parte dessas pressões, tentativas de intimidação e de linchamento da minha imagem pública. Foi nessa ocasião que um representante da Prefeitura de Teresina pediu minha demissão. Na época trabalhava no Portal AZ. Isso aconteceu após dois dias de telefonemas dessas mesmas pessoas, querendo frear minhas postagens no blog e nas redes sociais. Como nada deu resultado, prepararam algo maior.

Fantasmão / Reprodução 
Durante uma das manifestações, o jornalista Igor Prado perdeu os óculos e me pediu ajuda para procurar. Entrei na estrutura de uma das árvores de natal da prefeitura erguidas na Av. Frei Serafim – aquelas apelidadas de “Fantasmões” – para ajudar o colega. (Ele estivera no local instantes antes.) Pois bem, os operadores das câmeras de segurança da avenida fecharam  o zoom em mim, editaram essa parte do vídeo, tirando-o do contexto geral, e a Strans (órgão gestor do trânsito e do transporte público, ligado à Prefeitura de Teresina) convocou as televisões para a divulgação da imagem de “um jornalista que ateou fogo na árvore de natal da prefeitura”. Foi um inferno.

Ainda tava na pauta quando recebi a ligação de uma colega, avisando do que ia ser feito. Ela leu o anúncio da entrevista coletiva convocada pela gestora da Strans no blog de um jornalista mais afoito - o cara vazou a informação antes da parada toda acontecer e isso foi primordial para barrar a sacanagem. Logo depois outra colega ligou, dizendo que viu as imagens, que o vídeo não dizia nada, mas que todas as TVs estavam a postos para divulgá-la com o discurso oficial (e mentiroso!).

Compartilhei a história com os colegas jornalistas que estavam comigo na Av. Frei Serafim, dei uns três telefonemas desaforados, gritei um bocado até que convenci um assessor da prefeitura que eles estavam dando um tiro no pé. Ora, seria veiculada uma mentira que eu poderia facilmente desmentir. Além de testemunhas, havia os vídeos da própria Strans, que mostrados no contexto certo provariam a farsa. Abortaram o plano, mas me causaram um grande estresse, além de danos à minha imagem. Na fui parar no noticiário, contudo, a falsa história rodou nas redações e até hoje sou considerado por muitos como um projeto abortado de “Nero”. (Durante a campanha eleitoral, eu frescava com um candidato nas redes sociais e um assessor puxa-saco dele me chamou assim.)

Fora isso, durante a cobertura dos protestos fui ameaçado de prisão duas vezes. E olha que eu estava como jornalista, apenas fazendo perguntas. Mas isso não foi nada perto do que a galera que estava na linha de frente sofreu.

Hoje, formado e profissional da área, você se arrepende de não ter escolhido outra carreira? Por quê?
Sempre que me arrepio com uma pauta, tenho certeza que estou na carreira certa. Não me arrependo um milímetro da profissão que escolhi.

Qual o erro que cometeu em início de carreira que ainda te faz rir ao lembrar?
Na primeira semana em um emprego novo, puxei para a manchete do portal a matéria “Governo empenha R$ 90 milhões para vítimas de enchentes”. O problema que o dedo bateu na tecla errada do computador e o “empenha” virou “emprenha”. E a verba “emprenhada” pelo governo ficou lá no alto do site por uma tarde quase toda. Pra piorar, quem percebeu o erro foi o chefe, que me deu um belo de um puxão de orelha.

Tem alguma empresa de comunicação que você gostaria de trabalhar, mas não teve oportunidade ainda?
Aqui no Piauí... Não agora.

Falando em carreira, como foi a tua ida para O Dia?
Trabalhava no Portal AZ há quase três anos, quando pintou o convite para ir para O Dia. Conversei com algumas pessoas, avaliei todas as possibilidades e resolvi aceitar. Tinha vontade de trabalhar em impresso. Apesar de atuar no Portal O DIA, quase todo nosso material é utilizado no jornal.

E tua carreira como um todo, fala um pouco pra gente das tuas conquistas.
Carreira curta. Trabalhei em duas assessorias de órgãos públicos e três sites de notícias. E já ganhei dois prêmios de reportagem. Tenho muito chão a pisar. Não estou pronto; tenho poucos calos. Preciso aprender muito para dizer que tenho uma carreira marcante, com feitos significativos.

Você já pensou em fazer telejornalismo? Por quê?
Não. É uma área que não me atrai. Tudo que impõe grandes limitações de espaço me afasta. A TV trabalha com minutos, segundos. Por isso prefiro a internet, que não tem esse tipo de limitação.

O que você tem a dizer aos futuros jornalistas?
Eu quem preciso de conselhos, como vou dar algum? Desejo apenas que nunca se considerem jornalistas prontos e mantenham as cabeças abertas para aprender e entender o diferente. Profissionais com senso de justiça social apurado e que atuem em defesa dos mais frágeis são sempre bem vindos. É bom contar com gente pronta para usar a desconfiança, a rebeldia, o inconformismo, a curiosidade e a ética como ferramentas para a constante busca pela verdade. Que essa nova safra aprenda com os bons exemplos, nunca colocando qualquer punhado de dinheiro ou regalias à frente da nossa missão primordial: informar. O jornalismo é uma importante arma para mudar o que está errado. Que os futuros jornalistas saibam fazer bom uso dela.

E aos que desejam cursar jornalismo?

Que venham. É um campo difícil, cheio de agruras, mas extremamente prazeroso e importante para a sociedade.

Tópico: Ferramentas Foca






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